O cabo de aço de ponte rolante deve ser inspecionado pernamentemente, como exige a NR-11, e trocado quando atinge os critérios de descarte da ABNT NBR ISO 4309:2022.
Entre eles estão arames partidos, redução de diâmetro, corrosão e deformações como a “gaiola de passarinho”. O limite exato depende da construção do cabo e do grupo do mecanismo.
O erro mais comum é avaliar o cabo só por fora. Corrosão e fadiga internas são as principais causas de descarte, e a inspeção externa pode não mostrar a deterioração, mesmo com o cabo perto de romper.
Outro erro é repor com um cabo de construção diferente, só porque o diâmetro é o mesmo.
Por que o cabo de aço exige atenção especial?
A NR-11 manda dar atenção especial a cabos de aço, cordas, correntes, roldanas e ganchos, que devem ser inspecionados permanentemente (item 11.1.3.1). Isso ocorre porque o cabo é o elemento que segura a carga.
No estudo de manutenção apresentado no CONEM 2010, a quebra do cabo recebeu severidade máxima, 10, porque o efeito é a queda da carga.
O cabo também está entre os itens que mais param a ponte. A dissertação “Programa de inspeção para ponte rolante baseado em risco”, de Alexsandro Barbosa Silva (PUC-Rio, 2004), estudou 20 pontes rolantes de uma fundição.
Ela incluiu o cabo de aço da elevação entre os cinco componentes críticos, ao lado de rodas, eixo, motorredutor e guincho.
Na mesma linha, o estudo do CONEM registra que, na fundição analisada, os cabos passavam por 6 a 9 inspeções por ano.
Em ambiente com calor, poeira e uso contínuo, a frequência precisa ser maior do que a de uma ponte de almoxarifado.
Como inspecionar o cabo de aço da ponte rolante
A inspeção tem duas camadas. A visual, de rotina, procura arames partidos, amassamentos, dobras, corrosão aparente e enrolamento irregular no tambor.
O TCC de engenharia mecânica do IFMG (2023) orienta fazer essa inspeção com o equipamento energizado, subindo e descendo o gancho, e proíbe tocar o cabo com as mãos.
Se for preciso tocar no cabo, o equipamento deve ser bloqueado antes, como exige a NR-12 no item 12.11.3.
A segunda camada é a inspeção interna. Segundo a dissertação da PUC-Rio, ela deve ser feita por pessoa qualificada, abrindo o cabo com garras e aplicando força no sentido oposto ao da torção.
Nessa abertura, avaliam-se a lubrificação interna, a corrosão, as mossas nos arames e os arames partidos.
A dissertação indica as regiões mais importantes: os trechos que passam pela polia sob carga, os próximos ao tambor e às polias e os junto aos terminais. Depois, a parte aberta é lubrificada por dentro antes da retirada das garras.
Quando trocar o cabo de aço da ponte rolante?
O cabo de aço deve ser trocado quando atinge um dos critérios de descarte da ABNT NBR ISO 4309:2022.
Essa norma trata de cuidados, manutenção, inspeção e descarte de cabos de aço em equipamentos de movimentação de carga e guinchos.
O número de arames partidos admitido varia com a construção do cabo, o tipo de torção e o grupo do mecanismo.
Alguns defeitos levam ao descarte imediato, independentemente da contagem de arames. A dissertação da PUC-Rio reproduz os exemplos da edição de 1998 da norma, e entre eles estão:
- Corrosão interna acentuada;
- Deformação do tipo “gaiola de passarinho”, em que as pernas se abrem e o cabo incha;
- Extrusão de arames, quando eles saem da perna e formam laços;
- Nó ou laço apertado no cabo;
- Achatamento com arames partidos, típico de cabo que saltou da ranhura da polia;
- Aumento local de diâmetro por destorção da alma, causado por carregamento de choque.
Como os limites numéricos dependem da edição da norma, peça ao inspetor que informe no relatório o critério usado e a edição vigente, que hoje é a de 2022.
Se o laudo citar só “desgaste normal”, sem diâmetro medido nem contagem de arames por comprimento, ele não permite acompanhar a evolução do cabo até a troca.
O que provoca o desgaste prematuro do cabo
O desgaste do cabo de aço pode resultar de diferentes condições mecânicas e operacionais, que afetam tanto sua superfície quanto os componentes internos.
A dissertação da PUC-Rio aponta como causas da redução de diâmetro e da ruptura de arames o atrito com tambores e polias, ranhuras inadequadas, sobrecargas e esforços repetitivos que provocam fadiga.
A falta de lubrificação adequada, o contato com poeira e a realização de içamentos em posições ou ângulos incorretos também contribuem para acelerar a deterioração.
O tambor merece atenção especial, pois suas condições influenciam diretamente a conservação do cabo.
Segundo o mesmo trabalho, o desgaste dos canais pode ocorrer devido ao atrito, ao enrolamento irregular, à lubrificação insuficiente e à sobrecarga.
Como consequência, um tambor desgastado pode reduzir a vida útil do cabo, inclusive após sua substituição.
Por isso, trocar apenas o componente danificado, sem verificar as condições do tambor e das polias, pode resultar em desgaste prematuro da peça nova.
Ao contratar a manutenção de ponte rolante industrial, peça que o serviço também contemple a avaliação desses elementos.
Os procedimentos de operação também influenciam a durabilidade. No estudo apresentado no CONEM, a saída do cabo da roldana foi associada, entre outras causas, ao uso inadequado do equipamento e à falta de treinamento.
Dessa forma, o checklist do operador e a capacitação da equipe contribuem tanto para a segurança quanto para a conservação do cabo de aço.
Como especificar o cabo de reposição
O cabo novo deve repetir a especificação do projeto: diâmetro nominal, construção, tipo de alma, sentido e tipo de torção e classe de resistência. O dimensionamento segue a norma de projeto, a ABNT NBR 8400.
O trabalho de conclusão da UniFOA (2021) mostra o cálculo para uma ponte de 1 t e usa fator de segurança 7, tirado de catálogo de fabricante.
Na falta do projeto, a especificação deve ser conferida por profissional habilitado, a partir da placa da talha, do manual e do diâmetro das polias e do tambor.
Peça ao fornecedor o certificado do cabo, com carga de ruptura e construção, e guarde-o com o registro da troca exigido pela NR-12.
Leve os dados do cabo e da talha para a cotação
Antes de solicitar um orçamento, reúna as informações da placa da talha, a capacidade do equipamento, o diâmetro, a construção e o comprimento do cabo atual, além do último relatório de inspeção.
Também é importante informar se o serviço deverá incluir a avaliação do tambor e das polias, para que os fornecedores considerem o mesmo escopo na elaboração das propostas.
Em equipamentos de elevação, a decisão sobre a substituição do cabo e a liberação da ponte rolante para operação devem ocorrer sob responsabilidade de um profissional legalmente habilitado.
O Soluções Industriais reúne mais de 50 mil fornecedores cadastrados e permite cotar a manutenção de ponte rolante industrial, com serviços de inspeção e troca de cabos, além de comparar fornecedores de talha elétrica.
Para conhecer os demais cuidados necessários com o equipamento, consulte o artigo sobre manutenção preventiva de ponte rolante. Já as exigências para a rotina de inspeção são apresentadas no conteúdo sobre NR-11 e ponte rolante.
Romário Martins · Colunista no segmento Economia e Negócios | Vice-presidente do Grupo Ideal Trends
Há mais de 19 anos, Romário tem ajudado empresas a alavancarem seu faturamento por meio da geração de demanda qualificada na web. Em sua trajetória, já ajudou a transformar o cenário de mais de 20.000 empresas.